quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A Espiral do Silêncio e a Espiral da Bobagem




Muitas vezes nos questionamos por que algumas pessoas, aparentemente normais, aparentam retardo mental no momento de expor e emitir suas opiniões. Alguns, por exemplo, se surpreendem com a facilidade com que encontramos falhas e truques desonestos no discurso neo ateu, mas geralmente esse material surge muitas vezes das mãos de pessoa acadêmicas. Ou seja, não são clinicamente dementes. Mas agem como se fossem. Há de tudo, incluindo falácias, erros lógicos básicos, pensamento limitado por frases incompletas (por exemplo, é dita uma frase “ele crê”, com omissão da sequência, o que deixa o objeto de crença não especificado e tira todo o sentido da asserção), erros de categoria e coisas do tipo. Temos que investigar esse fenômeno, pois determinados erros podem gerar conseqüências. Podemos até achar graça ao ver alguém falando bobagem o tempo todo, mas o assunto é mais sério do que parece. Eis então que esbocei uma teoria que complementa a teoria da espiral do silêncio, criada por Elisabeth Noelle-Neumann, no início dos anos 70, para explicar os efeitos dos meios de comunicação de massa.
A Espiral do Silêncio
Elisabeth Noelle-Neumann notou uma alteração na mudança de opinião dos eleitores quando a reta final de um processo eleitoral sob estudo tomou corpo. Ela mostrou que uma boa parte dos eleitores se aproximava de opiniões que julgavam dominantes. Nessa análise, o grupo que obtem a vantagem não é aquele que possui a hipótese ou abordagem mais correta, mas sim o que possui mais: (1) Impressão perante a opinião pública de que sua opinião é a “certa”, ou que se está no caminho certo; (2) Crença dos defensores desta opinião na vitória (o que aumenta a confiança); (3) Motivação dos defensores desta opinião no ato de lutarem por sua opinião. Com isso, entende-se que muitas vezes grupos que mostrem os fatores (1), (2) e (3) vão obter a aceitação de uma grande massa de indecisos, ou seja, daqueles que “vão com a maioria”. Outro ponto interessante, e que ocupa lugar central na teoria: aqueles que sentem-se distantes dos pontos (1), (2) e (3), mesmo que estejam com a razão, tendem a SE CALAR. Esses que se calam são o que entram na espiral do silêncio. Isso explica por que grupos militantes, como os adeptos das causas gayzistas e neo ateístas, obtem resultados maiores do que os grupos cristãos, que não executam a militância. Como se vê, a militância é um ato para jogar o seu oponente na espiral do silencio. Elisabeth mostrou vários resultados estatísticos comprovando que a fórmula se aplica sempre que existe a luta pela “opinião pública”. Podemos até dizer que Antonio Gramsci quando elaborou a sua Estratégia Gramsciana, estava tão apenas estudando uma forma de jogar os seus oponentes na espiral do silêncio. Só que Gramsci não tinha um modelo teórico para explicar o fenômeno. Ele apenas elaborou um modelo de “como chegar lá”. A explicação do fenômeno, feita de forma cientifica, coube a Elisabeth. Ela também ampliou a explicação para definir o motivo pelo qual alguém fica preso na espiral do silêncio. A idéia central nessa abordagem diz que alguns agentes sociais podem ser isolados de seus grupos de convívio caso emitam opiniões diferentes daquelas que o grupo considere como opiniões dominantes. Com isso, o medo do isolamento (o afastamento do convívio social) torna-se a principal força motriz para acionar o gatilho da opinião pública, pois os agentes sociais percebem o clima da opinião.
Vamos resumir, então, os pontos principais componentes que habilitam os efeitos da espiral do silêncio
1. Medo da rejeição pelos que o rodeiam;
2. Monitorização dos comportamentos, de forma a observar quais são os aprovados e os reprovados socialmente, (em grupo);
3. Há gestos e expressões que, sem fala, expressam a aprovação ou não de determinada ideia, comportamento;
4. Tendência para não expressar a sua opinião publicamente quando há possibilidade de rejeição, objeções ou desdém;
5. Quando se conclui que a opinião é aceita, a tendência é expressá-la com convicção;
6. O falar livremente de determinado ponto de vista reforça ainda mais a ideia de isolamento, por parte daqueles que defendem a opinião contrária;
7. Este processo apenas ocorre nas situações em que há uma questão moral forte – é a componente moral que dá poder à “opinião pública”;
8. Só questões controversas podem ativar a “Espiral do Silêncio”;
9. Nem sempre o ponto de vista mais forte é o defendido pela maioria da população;há o medo de o admitir publicamente;
10. A mídia de massa pode influenciar, e muito, o processo da “Espiral do Silêncio”, quando numa questão moral tomam determinada posição e exercem influência no processo;
11. As pessoas não se apercebem do medo dos outros e da questão do isolamento;
12. A “Opinião Pública” é limitada no tempo e no espaço – a “Espiral do Silêncio” apenas se verifica durante um período de tempo limitado; este processo tende também a ser limitado pelas fronteiras geográficas e culturais;
13. A “Opinião Pública” serve como instrumento de controle social, mas também de coesão social.
A Espiral da Bobagem
Tudo que Elisabeth nos traz, no entanto, só explica o PROCESSO de criação da espiral do silêncio. Enfim, é o meio pelo qual um grupo político ao defender sua opinião, e mesmo que não tenha razão, faça um grupo oposto SE CALAR. A teoria da espiral do silêncio termina por aí. Mas ela não nos explica o motivo pelo qual o grupo dominante começa a perder todos os parâmetros racionais em seu discurso. Isso é o que farei agora, tomando por base a espiral do silêncio.
Na parte 3 desta série, eu falei do controle de qualidade argumentativo. A idéia do controle de qualidade argumentativo envolve a checagem e a investigação de um conteúdo argumentativo a ser feito por qualquer outro grupo QUE NÃO AQUELE envolvido com a elaboração do argumento. Ou seja, o argumento de um marxista não pode ser validado independentemente por um marxista, assim como o argumento de um conservador não pode ser validado por um conservador, e assim por diante. É o mesmo princípio pelo qual nas organizações a peça produzida por um torneiro será avaliada por alguém do controle de qualidade, com uma função DIFERENTE da função que produziu a peça. O motivo é bastante óbvio: evitar conflitos de interesses. Há até uma disciplina, chamada segregation of duties, que separa os papéis que podem executar determinadas transações nas empresas. Como exemplo, alguém que vai obter um benefício por ter uma proposta comercial aprovada NÃO PODE participar do processo decisório para aprovar esta proposta. Para argumentos, o processo funciona da mesma forma. Um grupo que obterá os benefícios de uma ideologia não é aquele que irá encontrar os erros na ideologia, mas sim colher os frutos da implantação da ideologia. A missão de identificar os erros na ideologia é de um grupo OPOSTO à ideologia.
Vamos a uma pequena matriz para exemplificar:
• O discurso de um marxista deve passar por uma checagem de erros por um conservador
• O discurso de um conservador deve passar por uma checagem de erros por um marxista
• O discurso de um liberal deve passar por uma checagem de erros por um conservador, e vice-versa
• O discurso de um ateu deve passar por uma checagem de erros feita por um cristão
• O discurso de um cristão deve passar por uma checagem de erros feita por um ateu.
Na prática, isso seria apenas o segregation of duties e o controle de qualidade aplicado à atividade argumentativa. Naturalmente, ele não seria executado de uma maneira tão formal, com um checklist, mas a mera elaboração de uma série de textos mostrando os erros lógicos da outra parte já estabelece esse controle. E seguindo os princípios do controle de qualidade corporativo, a partir do momento em que não há o controle de qualidade institucionalizado, o produto gerado (no caso da argumentação, o argumento é o produto) perde qualidade de forma exponencial. Essa queda de qualidade vista nos produtos de uma empresa (que cai de um 6 Sigma para um 2 Sigma, por exemplo) é similar ao que em uma argumentação chamaríamos de “falar só bobagem”. Mas por que isso acontece? A resposta está justamente na espiral do silêncio: o grupo que faria o controle de qualidade SE CALOU. Então, o grupo que agora pode falar à vontade, sem ninguém para o censurar, começa a aumentar o nível de bobagem ao nível do absurdo, pois ele está obtendo os efeitos, que é impor a sua opinião e vencer o outro grupo politicamente. Se a meta é basicamente essa vitória política, e as bobagens podem ser proferidas (e inclusive planejadas para gerar mais dano ao oponente), a tendência é que eles façam isso mesmo. É por isso que é fácil encontrar 27 erros grotescos em um discurso de 9 minutos de Richard Dawkins. Ele está na espiral da bobagem, enquanto os cristãos estão na espiral do silêncio. O silêncio dos cristãos ingleses em relação às bobagens ditas por Dawkins o habilitam a dizer qualquer coisa (QUALQUER COISA MESMO), independente de passar por um freio lógico, desde que gere resultados, o que para ele é a estipulação de preconceito contra os religiosos nos mesmos moldes que era o anti-semitismo de Hitler. Claro que essa idéia não só pode como deve ser testada, mas os extensivos testes de uso ou não do controle de qualidade nas organizações já dão forte sustentação à teoria. Com essa idéia, entendemos muito da ação de grupos que falam verdadeiras sandices após o grupo oponente se calar. Com essa teoria, podemos dimensionar o altíssimo risco que é ter um país sem oposição ao governo atual, por exemplo. Fazer um grupo se calar, utilizando a espiral do silêncio, é simplesmente a implementação do direito de poder fazer qualquer coisa, pois aquele que se calou é o ÚNICO que iria censurar publicamente este grupo no ato de falar bobagens.
Vamos definir os dois grupos então:
• Espiral do Silêncio: Espaço ocupado por um grupo ideológico que se CALOU perante a atuação de um outro grupo, considerado ser dominante ideologicamente
• Espiral da Bobagem: Espaço ocupado por um grupo ideológico que obtem o direito de dizer qualquer bobagem, pois o único grupo que deveria monitorá-lo SE CALOU.
Monitorando a espiral do silêncio e a espiral da bobagem
Esta concepção divide muitos cenários atuais em “fatias”, em termos ideológicos de debates polarizados. (Quando não há polarização, a espiral do silêncio não se aplica, portanto a espiral da bobagem também não). Hoje em dia, no Brasil, muitos conservadores estão na espiral do silêncio. Isso está garantindo a eleição de Dilma, mesmo após uma série de atos de corrupção. Novamente explicado pela espiral do silêncio e a espiral da bobagem. Os conservadores estão na espiral do silêncio, e os esquerdistas do PT estão na espiral da bobagem. Portanto fazem o que quiserem, pois o grupo que iria censurá-los em público se calou. No cenário de duelos religiosos, é a mesmíssima coisa. Mesmo em maior quantidade, os religiosos, talvez por querer desistir da baixaria que é o discurso anti-religioso, se calaram. Alguns poucos ainda tentam revidar, mas com uma elegância suficiente para não conseguir “quebrar” a espiral. A “quebra” da espiral reside na QUEBRA da autoridade da outra parte. A outra parte, que está na espiral da bobagem, tenta obter uma autoridade que não tem, através de sua militância e discurso de baixo nível (planejado para que a outra parte se cale). Por isso, hoje os neo ateus descem de nível de forma absurda, pois isso ajuda a manter muitos cristãos na espiral do silêncio. E é justamente onde há o risco de achar que se o “outro fala bobagem, não há problema”. Uma série de leis judiciais (incluindo leis pró-aborto, ou leis contra a religião) é obtida por que os cristão estão perdendo pontos em política POR PERMITIREM que o outro lado o mantenha na espiral do silêncio. Quando eu defendo neste blog a reação firme, com atos de desmascaramento (e não o discurso polido cheio de fleumas) e exposição de fraudes, essa é a única atitude que quebraria a espiral do silêncio. A missão do cristão (assim como do conservador) é sair da espiral do silêncio. Pois o outro lado está na espiral da bobagem, falando tudo que quer para OBTER BENEFÍCIOS POLÍTICOS. Curiosamente, temos aqui uma grande oportunidade. Pelo fato do grupo religioso estar na espiral do silêncio por tanto tempo, o grupo da esquerda e da anti-religião da mesma forma está na espiral da bobagem. Por isso, falam tanta bobagem.
Neste site (http://lucianoayan.com/, por exemplo, eu simplemesmente disseco as bobagens que eles falam, de forma padronizada. A criação da consciência nos cristãos e conservadores do fato de que estes estão na espiral do silêncio (e o seu adversário está na espiral da bobagem), permite que se crie um novo modelo de atuação, que é aquele defendido aqui. As bobagens faladas pelo adversário devem ser expostas, para que aos poucos seja retirada a falsa autoridade que eles tentam nos impor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário