quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A educação brasileira no banco dos réus


Por Marcio Estanqueiro


 
Semana passada, as instituições de ensino de nosso país voltaram a funcionar. As ruas, o trânsito, o comércio de livros, ônibus escolares, e tudo mais que envolve a atividade educacional do país deram início a um novo ciclo rotineiro, tendo como objetivo básico a retomada do conhecimento.

É muito importante que tenhamos consciência que um país desenvolvido requer uma educação excelente, e que valores como: moral, ética, consciência cívica e responsabilidade, são pilares básicos para uma sociedade alcançar o progresso e conseguir uma ótima colocação aos seus cidadãos, gerando profissionais capacitados e impulsionando a nação cada vez mais.

A Educação brasileira, assim como a de qualquer outro país, tem suas características. Na Europa por exemplo existe o que eles chamam de “Cidadania Responsável”, que significa dizer, assumir responsabilidades em relação à comunidade, incentivar programas destinados à defesa do meio ambiente e do património histórico-cultural, aprofundar o relacionamento com Instituições de Ensino e outras, promovendo o intercâmbio Sociedade/Empresa, e também recusar a discriminação em função do sexo, raça, cor, religião ou convicções políticas. Na Alemanha, Países Baixos e Reino Unido o significado dessa mesma cidadania é chamado de “direitos e deveres cívicos”. A preocupação do Estado com o papel desempenhado pela Educação na formação da sociedade na Europa, é de fundamental importância.

A Educação no Brasil vai mal

Em nosso país a Educação está sofrendo um declínio em termos de qualidade. Segundo dados do INEP (Sistema de Avaliação da Educação Básica) e do Ministério da Educação e Cultura o diagnóstico sobre o desempenho escolar do ensino fundamental, assim como do ensino superior respectivamente apontam dados alarmantes. O ranking das piores faculdades brasileiras é um sintoma claro que as coisas não vão bem. A maioria das faculdades não conseguiram sequer obter nota 3 em sua avaliação. Observamos que em outros países, existe um esforço consciente de que é preciso fazer alguma coisa, para que os alunos alcancem uma formação competitiva , e um desempenho cada vez melhor.

No estado da Carolina do Norte (EUA) professores do Cochrane Collegiate, implementaram um método para ajudarem os alunos com baixo desenvolvimento a superarem suas deficiências. O método chamado como as “10 Dicas para envolver alunos com baixo desempenho” mostra a preocupação que deve existir pelo Estado, para que estudantes universitários possam adquirir a competência necessária no papel de suas funções futuramente. Uma nova fórmula pedagógica para incentivar atitudes críticas dos alunos e forçar um aprendizado melhor.

Dizer que nós brasileiros não temos consciência desse fato é mentira, porém o resultado que damos para essa análise é simplesmente pior do que a contestação da mesma. A atitude que tomamos ao implantar o Sistema de Cotas nas Universidades Públicas e escolas técnicas, onde 50% é reservado para negros, pardos e indígenas ao invés de ser um avanço, discrimina e nivela os mesmos a uma formação de baixo nível. Outra atitude que enxergamos como deficiente na análise de nossa educação, é culparmos o sistema econômico como sendo o vilão na história. Por que achamos que a culpa é sempre do Capitalismo?

Atribuir o desempenho da educação brasileira pela venda do conhecimento através de instituições privadas, culpando os empreendedores do ensino, e o lucro advindo de suas atividades, é no mínimo uma visão totalmente distorcida da realidade. Podemos ter ótimas faculdades particulares que forneçam o preparo excelente para seus alunos que estão ali estritamente para aprender. A falácia do “pagou passou” é desenvolvida com único objetivo de desvalorizar o corpo docente dessas instituições e com isso generalizar aquelas que ainda querem fazer do conhecimento uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento intelectual do cidadão.

O ensino familiar

Não é de se estranhar que muitos pais, famílias, estão cada vez mais aderindo a idéia de ensinarem seus filhos em casa, embora essa idéia seja uma “aberração” para o Estado, pois prefere que ele seja o próprio gestor na educação familiar, com seus projetos anti-éticos, imorais, como kit-gay, anti-família e anti-vida, rompendo todos costumes tradicionais de nossa cultura cristã, apesar de uma parcela da sociedade achar ainda que o melhor é não se responsabilizar pela educação de seus filhos, pois preferem que os professores, as instituições de ensino, garantam a formação dos mesmos.

A exigência da sociedade dos tempos modernos, é que precisamos acompanhar o ritmo alucinado das grandes conquistas em termos comerciais, como o lançamento cada vez mais veloz dos Notebooks, Ipads, Iphones, etc. porém o debate crítico que deveria ser o foco na formação profissional, esvazia-se na figura patética que o professor exerce em sala de aula. Por um lado cobrado pela instituição que seu “cliente = aluno” seja paparicado, e por outro que obtenha um resultado restrito, capaz apenas de atender a demanda a qual ele se propôs em aprender, o professor tornou-se uma figura descartável. A visão crítica de sua profissão e de como a exercerá, passa longe de sua expectativa. Dessa forma o professor desestimulado não pode responder mais pelo desempenho de seu aluno no mercado de trabalho. Estamos educando mal!

Se analisarmos as instituições públicas que necessariamente deveriam ter um ensino melhor, pois não existe a máxima do “pagou passou”, seus professores cumprem uma agenda totalmente anti-ética e inconstitucional. A queda no ensino ainda tem outros agravantes além desses que nos referimos. Havendo espaço, o Estado traz o “políticamente correto” para dentro das salas de aula,  desprezando o que está no texto Constitucional em seu art.206 onde diz que a liberdade de ensinar está a liberdade de aprender.

Assim temos escrito nesse mesmo artigo, o seguinte:

1. O professor não abusará da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente político-partidária, nem adotará livros didáticos que tenham esse objetivo. 

2. O professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, religiosas, ou da falta delas. 

3. O professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas. 

4. Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa – isto é, com a mesma profundidade e seriedade –, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito. 

5. O professor não criará em sala de aula uma atmosfera de intimidação, ostensiva ou sutil, capaz de desencorajar a manifestação de pontos de vista discordantes dos seus, nem permitirá que tal atmosfera seja criada pela ação de alunos sectários ou de outros professores.

Seria a educação brasileira uma utopia?

O reducionismo pedagógico foi o grande legado que Paulo Freire, patrono da Educação Nacional deixou para a nação. Juntando-se a ele temos o “construtivismo pós-piagetiano”, que inspirou o “preconceito linguístico”, que vilipendia a norma culta do idioma; a “geografia crítica”, que mistura bairrismo com economia marxista; a história em ação, que eterniza o presente; a matemática étnica, que cria analfabetos em tabuada. Paulo Freire relativizou o conhecimento, anulou a autoridade do professor e, sobretudo, assassinou o mérito – inviabilizando a possibilidade de educação. Em outras palavras a contribuição que o patrono de nossa Educação deixou, na verdade trouxe resultados aquém do que esperávamos como nação, os quais eram de fundamental importância para sairmos do atraso educacional em que vivíamos e que ainda hoje permanece.

Qual o caminho da Educação Brasileira?

Existem alguns “mantras” do “politicamente correto” que infelizmente são disseminados pela mídia e aceitos pelos analfabetos funcionais que por formação filtram pouco do que é realidade, e do que é verdade. Esse fato vem contribuir pelo pouco discernimento de como as coisas acontecem no pais. Esse seria o discurso do lucro fácil, sendo a causa de todos os dissabores da economia, assim como da educação. Como diz Carlos Alvarez Teijeiro, doutor em Comunicação Pública pela Universidade de Navarra, o lucro obtido pelas grandes empresas jornalísticas, e que deveria ser aceito pela sociedade, seria o lucro saudável, pois essa seria a forma das empresas promoverem uma vida cidadã como parte da responsabilidade social de uma empresa que ocupa um lugar privilegiado no espaço público, como devem ser os meios de comunicação.
 
O “Civic Journalism” – Jornalismo Cívico, é polêmico até entre os próprios jornalistas. Segundo Teijeiro a grande encruzilhada é tirar do caminho a má notícia e o denuncismo para abrir a passagem para textos mais críticos, onde possa ser difundido o pluralismo de idéias e o interesse democrático. "O Jornalismo Público não pretende fazer com que os cidadãos tomem partido, mas que a vida democrática interesse aos cidadãos. Uma democracia em que os cidadãos participem ativamente é uma democracia com mais qualidade do que aquela em que os cidadãos se limitam a votar a cada quatro anos".

Que rumo queremos para nossos jovens, e para sua formação?

Em primeiro lugar é necessário dizer que, a visão crítica que deve ser feita sobre o lucro dos empreendedores em instituições particulares de ensino faz parte natural da Economia de Mercado, porém o que deve ser exigido, é que a exigência dos estudantes seja compatível com um mercado de profissionais cada vez mais qualificado. Essa deve ser a exigência. Dessa forma o professor se sentirá seguro para ensinar e não somente formar alguém que tenha interesse apenas no diploma. O raciocínio está trocado, o mercado não pode exigir apenas profissionais que tenha um “canudo”, eles devem ser exigentes com a formação profissional do aluno, estimulando assim uma concorrência cada vez maior e exigindo um esforço proporcional do aluno ao aprendizado.

Em segundo lugar o Estado deveria fomentar o debate construtivo de idéias, o debate democrático, onde os alunos como cidadãos críticos pudessem obter informações de um Jornalismo saudável sem interesses políticos. O Jornalismo Público preencheria essa demanda e traria à mídia um compromisso maior com as causas públicas. A falta dessas, é uma das explicações pelas quais os jornais estão em crise no mundo, por conta de um distanciamento do interesse das comunidades.

Em terceiro lugar, talvez o mais difícil, seria a volta do que poderíamos chamar do tradicionalismo familiar na educação, onde a família seria a peça fundamental no aprendizado do aluno-cidadão, onde o mesmo, educado por uma família saudável, teria respaldo dentro da sala de aula, onde sua visão diferenciada, e  comportamento respeitoso, ajudasse o professor em seu ofício de transmissor de conhecimentos. No mundo em que estamos vivendo atualmente, isso é quase impossível. O tradicional, o conservador, é considerado ultrapassado, e o mundo caminha para uma situação totalmente desastrosa, tendo como parâmetros a ausência de fatores básicos. Sua economia, política, família, tem fundamentos podres, ultrapassados, levando não só seus cidadãos, estudantes e toda a sociedade a um futuro sombrio. A nós que ainda nos resta uma visão contrária, possamos influenciar o sistema como forma de agir, de pensar, de expressar e de falar nossas idéias. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A falácia do polilogismo

Por Rodrigo Constantino





"A humanidade precisa, antes de tudo, se libertar da submissão a slogans absurdos e voltar a confiar na sensatez da razão." (Mises) 
  

Em 1944, o economista Ludwig von Mises escreveu Omnipotent Government, onde explica o crescimento da idolatria ao Estado que levou ao nazismo na Alemanha, fomentando um ambiente de guerras ininterruptas. Em uma parte do livro, Mises explica uma das coisas que os nazistas pegaram emprestado do marxismo: o polilogismo. Até a metade do século XIX, ninguém contestava o fato de que a estrutura lógica da mente é comum a todos os seres humanos. "Todas as inter-relações humanas são baseadas na premissa de uma estrutura lógica uniforme", diz Mises. Podemos nos comunicar justamente porque apelamos a algo comum a todos, a estrutura lógica da razão.

Claro que alguns homens podem pensar de forma mais profunda e refinada que outros, assim como algumas pessoas não conseguem compreender um processo de inferência em longas cadeias de pensamento dedutivo. Mas isso não nega a estrutura lógica uniforme. Mises cita como exemplo alguém que pode contar apenas até três, lembrando que mesmo assim sua contagem, até seu limite, não difere daquela feita por Gauss ou Laplace. É justamente porque todos consideram este fato inquestionável que os homens entram em discussões, trocam idéias ou escrevem livros. Seria simplesmente impossível uma cooperação intelectual entre os indivíduos sem isso. Os homens tentam provar ou refutar argumentos porque compreendem que as pessoas utilizam a mesma estrutura lógica. Qualquer povo existente reconhece a diferença entre afirmação e negação, pode entender que A não pode ser, ao mesmo tempo, o contrário de A.

No entanto, apesar desse fato ser bastante evidente, ele foi contestado por Marx e pelos marxistas, entre eles o "filósofo proletário" Dietzgen. Para eles, o pensamento é determinado pela classe social da pessoa, e o pensamento não produz verdades, mas ideologias. Para os marxistas, os pensamentos não passam de um disfarce para os interesses egoístas da classe social a qual esse pensador pertence. Nesse contexto, seria inútil discutir qualquer coisa com pessoas de outra classe social. O que se segue disso é que as "ideologias não precisam ser refutadas por meio do raciocínio discursivo; elas devem ser desmascaradas através da denúncia da posição da classe, a origem social de seus autores". Se uma teoria científica é revelada por um burguês, o marxista não precisa atacar seus méritos. Basta ele denunciar a origem burguesa do cientista.

O motivo pelo qual os marxistas buscaram refúgio no polilogismo pode ser encontrado na incapacidade de refutação por métodos lógicos das teorias econômicas "burguesas". Quando o próprio Mises demonstrou que o socialismo seria impraticável pela impossibilidade de cálculo econômico racional, os marxistas não apontaram qualquer erro em sua análise lógica. Preferiram apelar para o estratagema do polilogismo, fugindo do debate com a desculpa de que sua teoria era uma defesa dos interesses de classe. O sucesso dessa tática marxista foi incrível, sem precedentes. Foi usado como "prova" contra qualquer crítica racional feita ao marxismo e sua pseudo-economia. Isso permitiu um crescimento assustador do estatismo moderno.

Conforme Mises lembra, "o polilogismo é tão intrinsecamente sem sentido que ele não pode ser levado consistentemente à suas últimas conseqüências lógicas". Nenhum marxista foi corajoso o suficiente para tentar fazer isso. Afinal, o princípio do polilogismo levaria à inferência de que os ensinamentos marxistas não são objetivamente verdadeiros, mas apenas afirmações "ideológicas". Os marxistas negam essa conclusão lógica de sua própria postura epistemológica. Para eles, sua doutrina é a verdade absoluta. São completamente inconsistentes. O próprio Marx não era da classe dos proletários. Mas para os marxistas, alguns intelectuais conseguem se colocar acima desse paradoxo. Os marxistas, claro. Não é possível refutar isso, pois se alguém discorda, apenas prova que não faz parte dessa elite especial, capaz de superar os interesses de classe e enxergar além.

Os nacionalistas alemães tiveram que enfrentar o mesmo tipo de problema dos marxistas. Eles não eram capazes de demonstrar suas declarações ou refutar as teorias econômicas contrárias. "Logo", explica Mises, "eles buscaram abrigo sob o telhado do polilogismo, preparado para eles pelos marxistas". Algumas mudanças foram necessárias para a adaptação, mas a essência é a mesma. Basta trocar classe por nação ou raça, e pronto. Cada nação ou raça possui uma estrutura lógica própria e, portanto, sua própria economia, matemática ou física. Pela ótica marxista, pensadores como Ricardo, Freud, Bergson e Einstein estavam errados porque eram burgueses; pela ótica nazista, eles estavam errados porque eram judeus. O coletivismo, seja de classe ou raça, anula o indivíduo e sua lógica universal.

Tanto o polilogismo marxista como o nacional-socialista se limitaram à afirmação de que a estrutura lógica da mente é diferente para as várias classes ou raças. Nenhum deles tentou elaborar melhor isso, tampouco demonstrar como exatamente ocorria tal diferença. Nunca entraram nos detalhes, preferindo, ao contrário, concentrar o foco na conclusão. No fundo, o polilogismo tem todas as características de um dogma. Se há divergência de opinião dentro da própria classe ou raça, ele adota um mecanismo peculiar para resolver a questão: os oponentes são simplesmente tratados como traidores. Para os marxistas e nazistas, existem apenas dois grupos de adversários: aqueles errados porque não pertencem à mesma classe ou raça, e aqueles oponentes da mesma classe ou raça que são traidores. Com isso, eles ignoram o incômodo fato de que há dissensão entre os membros da sua própria classe ou raça.

Deixo os comentários finais com o próprio Mises: "O polilogismo não é uma filosofia ou uma teoria epistemológica. Ele é uma atitude de fanáticos limitados, que não conseguem imaginar que alguém pode ser mais razoável ou inteligente que eles mesmos. O polilogismo também não é científico. Ele é a substituição da razão e da ciência por superstições. Ele é a mentalidade característica de uma era do caos".

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Como o estado deforma a ética e introduz dois parâmetros de moralidade


Por Hans F.Sennholz





A velha lei cristã que nos ensina a tratar com respeito, cortesia e amabilidade as pessoas é uma regra irredutível de conduta individual, uma regra que não possui flexibilidade ou brechas que permitam interpretações deturpadas.  Trata-se de um axioma básico para que toda a cooperação social e coexistência humana seja pacífica e produtiva.  Com efeito, trata-se de um alicerce indispensável para toda e qualquer civilização que queira prosperar.  

No entanto, é inegável que estejamos, de maneira inconsciente e gradativa, solapando a rigidez deste alicerce.  E tal procedimento já vem ocorrendo há várias décadas, de modo que aquele outrora robusto alicerce hoje se tornou apenas um pequeno toco não mais capaz de sustentar com vigor as relações inter-humanas e a toda a vida social.  

É verdade que a lei do amor ao próximo ainda fundamenta grande parte de nossas relações individuais diretas.  Dentro de nossas famílias, praticamos — ou ao menos nos esforçamos para praticar — este mandamento.  Em nossas relações diretas com nossos parentes próximos e até mesmo com nossos vizinhos, nos esforçamos para não infligir nenhum dano sobre eles e suas famílias.  Uma relação amistosa e cordial ainda é algo mais frequente do que uma relação maliciosa e destrutiva.  Em todas as nossas interações sociais, sejam elas associações econômicas ou quaisquer outras relações casuais, basicamente respeitamos os direitos e a liberdade de nosso semelhante.

Mas tudo isso se altera quando entra em cena o estado.  Ou, colocando de outra forma, tudo isso se altera quando vemos no estado uma ferramenta legítima para a imposição e a consecução de nossas demandas.  Com o estado, somos indivíduos transfigurados.  Somos outros.  Com este organismo político, não há espaço para a lei do amor ao próximo; não há espaço para a cortesia, para o respeito e para a amabilidade.  Quando agimos utilizando o estado para atender às nossas demandas políticas, agimos de uma maneira que um indivíduo minimamente escrupuloso jamais sonharia em agir em suas relações inter-humanas diretas.  Não há espaço para a cortesia e para o respeito ao próximo quando fazemos do estado o sistema canalizador de nossas demandas.

Considere os seguintes exemplos. 
Como indivíduos, não pensamos em extrair, por meio da violência ou da ameaça de violência, nenhuma fatia da riqueza ou da renda do nosso vizinho.  Porém, em nossa vida política, estranhamente passamos a nos sentir livres e moralmente desimpedidos para 1) extrair boa parte de sua renda por meio de altas alíquotas de impostos e 2) controlar sua riqueza — e a maneira como ele a investe — por meio de uma multiplicidade de regulamentações econômicas.

Como pais, não pensamos em coagir nosso vizinho para que ele contribua para a educação de nossos filhos.  Porém, como membros de um organismo político, recorremos à tributação com o intuito de coagi-lo a financiar a educação de nossos filhos, de modo que eles tenham "educação pública, gratuita e de qualidade".  De quebra, isso faz com que nos sintamos "liberados" das nossas obrigações morais e pessoais para com nossos próprios filhos.  Alguém que quisesse propositalmente criar uma sociedade de pais indolentes e negligentes dificilmente teria uma ideia melhor.

Como seres humanos, não pensamos em surrupiar nosso vizinho de toda a sua poupança e aposentadoria.  Porém, como seres políticos, defendemos que o valor delas seja brutalmente reduzido por políticas governamentais de inflação monetária, de crédito fácil e de empréstimos subsidiados para pessoas e empresas de que gostamos.  Como indivíduos, não pensamos em encarecer artificialmente aqueles produtos que nosso vizinho mais pobre consegue comprar.  Como membros do corpo político, consideramos pefeitamente normal obrigá-lo a pagar mais caro por meio de políticas governamentais de desvalorização cambial e de imposição de tarifas de importação, as quais visam a proteger aquelas empresas ineficientes pelas quais temos alguma preferência.

Como pessoas caridosas, jamais pensaríamos em atacar a herança de uma viúva e de seus órfãos, e jamais pensaríamos em coagi-los para que eles nos colocassem como co-herdeiros.  Como membros do corpo político, podemos obrigá-los a repassar metade de sua herança para nós.

Como indivíduos empreendedores, não cogitamos obrigar nossos concidadãos que vivem em outras partes do país a nos auxiliar em nossos empreendimentos locais; como participantes do sistema político, obrigamo-los a nos ajudar a alcançar nossos objetivos econômicos por meio de subsídios, repasses obrigatórios e outras contribuições governamentais.

Dois parâmetros distintos de moralidade

Se homens malvados e violentos passassem a assediar nosso vizinho com o intuito de extorquir uma parte de (ou toda a) sua renda, ou simplesmente se pusessem a oprimi-lo de alguma forma, nós corajosamente sairíamos em sua defesa.  Se ele porventura ferisse ou até mesmo matasse um de seus agressores, iríamos absolvê-lo de qualquer acusação criminosa por ter agido em legítima defesa.

No entanto, se este mesmo vizinho, por ter se recusado a ter seus bens confiscados pelo estado por não ter pagado devidamente seus impostos, viesse a ferir ou até mesmo a assassinar em legítima defesa um "representante do estado" que foi à sua propriedade para confiscá-la, iríamos condená-lo por ter se recusado a abrir mão de parte de sua riqueza e por consequentemente ter privado o governo de utilizá-la para financiar aqueles programas de que gostamos.  E com toda a nossa fúria e desejo de vingança, defenderíamos que ele fosse jogado em uma penitenciária e por lá ficasse "por um bom tempo".

Utilizamos dois padrões distintos de moralidade para mensurar nossos feitos e atitudes.  Somos rápidos e severos para condenar os delitos que nosso vizinho comete.  Mas somos incapazes de julgar com a mesma severidade nossas próprias ações quando estas são efetuadas por meio do sistema político.

Condenamos um vizinho quando este comete fraude, roubo, esbulho, usurpação, sequestro ou assassinato contra nossos semelhantes.  No entanto, somos incapazes de fazermos um auto-julgamento quando defendemos que o governo confisque a riqueza alheia por meio de impostos, sequestre aqueles indivíduos que não "pagaram devidamente" esses impostos, assassine aqueles indivíduos que oferecerem resistência a este sequestro, reduza a poupança e o poder de compra da população por meio da impressão de dinheiro (falsificação), estatize ou assuma forçosamente o controle majoritário de empresas privadas, e usurpe por meio de regulamentações e burocracias o direito de indivíduos exercerem atividades econômicas que concorram com as empresas favoritas do governo.

Duas almas em nosso peito

Condenamos um indivíduo por desconsiderar suas promessas, seus acordos e seus contratos, e nos esforçamos para fazê-lo cumprir suas obrigações contratuais por meio de ações judiciais e de outros meios legais ao nosso dispor.  Mas prontamente condescendemos com práticas governamentais que desprezam promessas e até mesmo os mais básicos mandamentos éticos.  Podemos até mesmo chegar ao cúmulo de nos simpatizarmos com políticas explicitamente ilegais e condenar aqueles que são prejudicados por elas e que agiram em legítima defesa para se proteger.

A realidade é que temos duas almas em nosso peito: uma que procura fazer o que é moral e eticamente certo, e outra que renega a própria existência de padrões morais e éticos.  A humanidade já pagou, está pagando e ainda irá pagar um enorme preço por ter rejeitado os mais básicos princípios cristãos do respeito, da cortesia e do amor ao próximo na esfera da ação política, a qual só faz crescer.  O preço foi, é e será pago na forma de escravidão, guerras e crescentes tensões sociais.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Carta aberta aos estatistas do mundo




Por Lawence W.Reed 

Como você pode declarar fidelidade à paz e a não violência e, ao mesmo tempo, pedir por mais redistribuição forçada?

Vocês veem uma falha qualquer no mercado como razão para o governo crescer, mas raramente veem as falhas do governo como razão para limitá-lo. A propósito, de onde vocês acham que vem a riqueza?

Caros amigos estatistas,

Eu sei, eu sei… Vocês já têm uma objeção à minha carta. Vocês não gostam do rótulo “estatista” e não se veem como adoradores do governo. Ao invés disso, se veem como pessoas que simplesmente desejam ajudar as pessoas, e o governo é apenas o seu meio favorito para atingir esse valioso fim. “Estatista”, vocês dizem, é um termo carregado – um nome pejorativo que sugere mais do que estão dispostos a admitir publicamente.

Bem, vamos ver como o termo parece depois de vocês terem lido minha carta até o fim e respondido as suas perguntas. Se estiver em dúvida se essa missiva é direcionada a você, deixe-me explicar para quem estou escrevendo. Se você está entre aquelas pessoas que gastam a maior parte de seu tempo e energia defendendo propostas que expandem da ação governamental e pouco ou nenhum tempo recomendando reduções compensatórias do poder do estado, então essa carta realmente achou seu destino.

Vocês são inteligentes e estão sempre encontrando novas formas do governo fazer isso ou aquilo, se pronunciar sobre algumas questões, resolver problemas ou suprir alguma necessidade em algum lugar. Até nós, defensores de um governo limitado, somos atolados em suas minutas sobre como os programas que propõem devem funcionar (ou não funcionar). Enquanto fazemos o trabalho técnico, que vocês raramente fazem, vocês nos demonizam como insensíveis devoradores de números que não se importam com as pessoas.

Às vezes nós também nos enrolamos em questões técnicas e ignoramos o contexto. Eu proponho darmos um passo atrás por um momento. Deixem de lado suas listas com infinitas sugestões de coisas que o governo poderia fazer e foquem o quadro geral. Eu preciso de respostas sérias para algumas perguntas sobre as quais vocês talvez nunca tenham pensado, por estarem envolvidos demais com os programas du jour.

No começo do século XX, todos os níveis de governo dos Estados Unidos tomavam apenas 5% da renda das pessoas. Cem anos depois, ele toma mais de 40% — oito vezes mais. Então, as minhas primeiras perguntas são as seguintes: Por que isso não é o suficiente? Quanto mais vocês querem? 50%? 70%? Querem tudo? Até que ponto vocês acreditam que alguém tem direito à renda que ele ou ela ganhou?

E eu quero números específicos. Como milhões de americanos que planejam a aposentadoria e a educação de seus filhos, eu preciso saber. Eu já sacrifiquei muitos planos para pagar as suas contas, mas se vocês querem ainda mais, terei que cortar significativamente minhas doações para caridade, meus gastos eventuais, minhas economias para emergências, minhas futuras férias, e algumas outras coisas que talvez valessem a pena fazer.

Eu sei o que vocês estão pensando: “Lá vem você novamente com seu caráter egoísta. Nós estamos preocupados com as necessidades de todas as pessoas e você só está interessado na sua conta bancária”.

Mas quem está realmente preocupado com dólares e centavos aqui, eu ou vocês?
Por que será que por eu discordar de vocês em relação aos meios, vocês quase presumem que me oponho aos seus fins? Eu desejo que as pessoas se alimentem bem, vivam vidas longas e saudáveis, tenham acesso aos cuidados médicos e aos remédios que precisam etc, etc.. exatamente como vocês. Mas acontece que eu acredito na existência de maneiras mais criativas e voluntárias de fazer isso acontecer do que usar a força governamental para roubar de Peter e entregar a Paul. Por que vocês não mostram confiança em seus compatriotas e presumem que eles também são capazes de resolver os problemas sem vocês?

Nós não somos ignorantes, sem escolhas, apesar do desempenho das suas escolas estatais e de termos que nos virar com um pouco mais da metade do que ganhamos. Na verdade, dê-nos um pouco de crédito por termos conseguido fazer coisas incríveis como alimentar, vestir e abrigar mais pessoas, e em um nível maior, do que qualquer sociedade socializada jamais sonhou, mesmo com um corte de 40% em nosso salário.
E isso levanta uma série de perguntas sobre como vocês veem a natureza do governo e o que aprenderam — se é que aprenderam — sobre as nossas experiências coletivas com ele. Eu vejo o governo ideal como viram os fundadores dos Estados Unidos. Nas palavras atribuídas a Washington, o governo é “um servo perigoso” que emprega a força legal para a proteção das liberdades individuais. Sendo assim, ele é responsável por deter fraudes e violência, e por se manter pequeno, limitado e eficiente. Como você pode declarar fidelidade à paz e a não violência e, ao mesmo tempo, pedir por mais redistribuição forçada?

Não invoque a democracia a não ser que esteja preparado para explicar por que “o poder gera o direito”. É claro que desejo que os governados tenham participação em qualquer governo que venha a governar, mas diferentemente de vocês, não cultivo a ilusão de que qualquer ação pode se tornar uma função legítima do governo caso seus apoiadores sejam abençoados por 50% ou mais daqueles que de dispõem a ir às urnas. Deem-me algo mais profundo do que isso ou vou arregimentar o pelotão da maioria para legitimamente revindicar tudo o que a massa quiser e pertença a vocês.
Por que será que vocês estatistas não aprendem nada sobre o governo? Vocês veem uma falha qualquer no mercado como razão para o governo crescer, mas raramente veem as falhas do governo como razão para limitá-lo. Na verdade, às vezes eu imagino se vocês conseguiriam identificar qualquer falha no governo! Será que só capturaríamos a sua atenção com uma enciclopédia das promessas quebradas, dos programas fracassados e dos bilhões desperdiçados? Será que teríamos mesmo que falar sobre todos os paraísos dos trabalhadores que jamais se realizaram? Os programas chamativos que fracassaram? Os problemas que o governo deveria resolver, mas que serão apenas administrados em uma custosa perpetuidade?
A propósito, de onde vocês acham que vem a riqueza? Eu sei que vocês gostam de coletá-la e lavá-la por meio da burocracia – “alimentando pardais através dos cavalos,” como diria o meu avô – mas digam-me honestamente como vocês acham que a riqueza é criada. Vamos! Vocês conseguem! Digam: iniciativa privada.

Eu sei… Já fiz perguntas demais. Mas vocês precisam entender que estão pedindo muito mais em sangue, suor, lágrimas e recursos, de todos nós, toda vez que empilham mais ações governamentais sem nos aliviarem do peso que já existia. Se o que lhes perguntei acabar por fazê-los repensar suas premissas e empregar algumas restrições no alcance do estado, então talvez o rótulo de estatista não se aplique a vocês. Se for esse o caso, vocês podem vir a dedicar uma parte maior das suas energias a verdadeiramente resolver problemas ao invés de apenas falar sobre eles, e libertar pessoas ao invés de escravizá-las.

Atenciosamente,

Lawrence W. Reed