Quem acompanha a situação europeia exclusivamente pela mídia fica com a
certeza de que o termo 'austeridade' é uma manifestação explícita do
anticristo, e que se trata de uma medida que deve ser evitada de todas as
formas. A ideia é que reduções nos gastos do governo tiram a sustentação
da economia e a empurram para uma interminável espiral depressiva.
Curiosamente, quando a imprensa fala em austeridade, ela menciona em tom
crítico apenas uma parte dela, que é o corte de gasto, e nada fala sobre a
outra parte, que é o aumento de impostos e seus efeitos genuinamente
recessivos.
Quando o governo corta gastos, de fato há quem saia prejudicado. O
exemplo mais claro seria o de funcionários públicos que tivessem seus salários
reduzidos. Isso é muito raro, mas pode ocorrer. As empresas que
possuem como clientes principais um grande número de funcionários públicos
seriam atingidas. Pense em um restaurante chique de Brasília que tem como
clientela o pessoal das agências reguladoras. Se as agências fossem
abolidas (sonhemos um pouquinho), as receitas desse restaurante cairiam.
Da mesma forma, se o número de deputados e senadores diminuísse, o Piantella
iria à falência.
Esse foi um exemplo visualmente fácil de ser entendido. Há outros
menos claros. Por exemplo, cortes de gastos do governo irão afetar as
várias empresas que só sobrevivem porque possuem contratos de prestação de
serviços junto ao governo. Empresas terceirizadas por estatais e
empreiteiras que fazem obras para o governo são os exemplos mais claros.
Há também as várias atividades econômicas que recebem subsídios e que, sem
estes subsídios, teriam de se virar, cortar gastos e demitir pessoas.
O que todas estas atividades têm em comum é que elas só sobrevivem e só
são lucrativas com a muleta do governo. Isso faz com que elas sejam
classificadas como atividades econômicas insustentáveis. São
atividades que não dependem da demanda voluntária do consumo privado para
sobreviver. Uma vez cortado o fluxo de dinheiro governamental, elas
perdem sustentação e definham. Elas não necessariamente irão quebrar,
pois podem se reestruturar e mudar seu enfoque de mercado. Mas estão
indiscutivelmente sobredimensionadas, e a prova disso é que só mantêm seus
atuais lucros com dinheiro repassado pelo governo. Elas são, portanto,
atividades que absorvem recursos e capital da sociedade. Elas não
produzem; elas consomem.
Uma redução nos gastos do governo, portanto, possui este efeito salutar
sobre a economia. Faz com que empresas que consomem recursos e que
produzem apenas de acordo com demandas políticas tenham de ser enxugadas.
Empresas que só sobrevivem devido aos gastos do governo não produzem para
consumidores privados; elas utilizam o dinheiro dos cidadãos mas produzem para
o estado. Elas não utilizam capital de maneira produtiva, de forma a
atender os genuínos anseios dos consumidores privados: ao contrário, elas
utilizam capital fornecido pelos pagadores de impostos mas produzem apenas para
servir a anseios políticos. Em suma, não agregam à sociedade. Por
definição, subtraem dela.
Este tipo de atividade econômica privada que só sobrevive por causa dos
gastos do governo é idêntico àquelas outras atividades privadas que só são
lucrativas quando está havendo uma forte expansão do crédito. Quando o
crédito é farto e barato, e a demanda por imóveis é crescente, várias
construtoras e várias imobiliadoras apresentam lucros estratosféricos.
Porém, quando o crédito encarece — ou quando os consumidores já estão muito
endividados — e a demanda cai, os lucros viram prejuízos. Um corte de
gastos do governo gera idêntico efeito sobre empresas que possuem o governo ou
funcionários do governo como principal cliente.
E por que isso seria bom? Porque, ao falirem, essas empresas
liberam mão-de-obra e recursos escassos que poderão ser utilizados mais
eficientemente por empresas mais produtivas, empresas que estão no mercado para
realmente atender às demandas dos consumidores. Por isso, é essencial
que, ao cortar gastos, o governo também reduza impostos. Isso não
apenas irá dar mais poder de compra às pessoas, como também irá permitir que as
empresas produtivas tenham mais capital e, consequentemente, possam contratar
mais pessoas.
Tendo estes conceitos em mente, há quatro maneiras de se fazer
austeridade:
1) Aumentar impostos e cortar gastos;
2) Aumentar impostos e manter gastos inalterados e;
3) Manter impostos inalterados e cortar gastos;
4) Reduzir impostos e cortar gastos em uma intensidade maior do que o
corte de impostos;
A primeira é a que gera uma recessão mais intensa. De um lado, o
corte de gastos debilita aquelas empresas que dependem do governo, o que é bom;
mas, de outro, o aumento de impostos confisca ainda mais capital da sociedade,
mais especificamente do setor produtivo, que é justamente quem absorveria a mão-de-obra
demitida das empresas que faliram em decorrência dos cortes de gastos do
governo. Você tem, portanto, o pior dos dois mundos. Aumento do
desemprego, população com menor poder de compra, e setor privado sem capital
para contratar. É isso que a Europa está fazendo.
A segunda maneira, ao contrário do que se supõe, é a pior. O
governo aumenta o confisco do capital do setor privado, mas continua dando
sustentação às empresas ineficientes, que também consomem capital do setor
produtivo. A recessão neste caso é menos intensa, mas os desequilíbrios
de longo prazo não são corrigidos. A economia fica com menos capital, mas
as empresas ineficientes seguem firmes, pois seu cliente é o governo, que
continua gastando. No final, tal medida serviu apenas para aumentar o
consumo de capital de toda a sociedade.
A terceira maneira é melhor que a primeira e a segunda. O governo
continua confiscando capital, é verdade, mas ao menos liberou outros recursos
por meio da falência de empresas que só sobreviviam em decorrência de seus
gastos. Em termos de recessão, é mais branda que a primeira e semelhante
à segunda.
A quarta maneira é a maneira correta de se fazer austeridade. A
redução de gastos do governo faz com que empresas ineficientes que dependem do
governo sejam enxugadas (ou quebrem) e liberam mão-de-obra e recursos escassos
para empreendimentos produtivos e genuinamente demandados pelos cidadãos.
E as empresas responsáveis por esses empreendimentos produtivos terão mais
facilidade para contratar essa mão-de-obra demitida porque, em decorrência da
redução nos impostos, elas agora têm mais capital e seus consumidores, mais
poder de compra.
Além de não provocar uma recessão profunda — haverá recessão apenas se o
governo impuser medidas que retardem a realocação de mão-de-obra de um setor
para o outro (por exemplo, aumentando o seguro-desemprego ou o salário mínimo,
ou impondo altos encargos sociais que encareçam o processo de demissão e
contratação) —, esta maneira é a única que reduz duplamente o desperdício de
capital e, com isso, permite uma maior acumulação de capital. Maior
acumulação de capital significa maior abundância de bens produzidos no
futuro. E maior abundância de bens significa maior qualidade de vida.
Portanto, há austeridade e "austeridades". A melhor
maneira é também a menos indolor e a mais propícia ao enriquecimento futuro de
uma sociedade. É injustificável não adotá-la.
Dentre os objetivos dos
apoiadores do terrorismo disfarçados de pacifistas está acabar com a parceira
entre Israel e o Brasil, que precisa manter-se atualizado em tecnologia de
ponta na área militar.
A acusação feita contra
Israel de prática de apartheid é infame. O que os organizadores deste Fórum não
aceitam é a própria existência do estado judeu.
O
encontro internacional de milhares de militantes anti-israelenses, que ocorrerá
em Porto Alegre, com o patrocínio do governo Tarso Genro e do PT, no final
deste mês, não deve ser compreendido apenas sob uma ótica ideológica. É certo que uma das finalidades do Fórum
Mundial Palestina Livre é apresentar Israel como um estado criminoso e racista,
de acordo com o histórico cânone da propaganda oficial palestina, difundido por
partidos e organizações esquerdistas de todo o mundo há décadas e
reverberado no documento de referência do Fórum. É seguro, também, que, no
momento em que Israel lança uma ofensiva
militar na Faixa de Gaza, para proteger sua população contra as centenas de
mísseis disparados pelo Hamas e outros grupos terroristas palestinos, a
organização do tal Fórum fará de Porto Alegre um centro difusor de
mistificações e distorções antissemitas
ainda mais intensas.
Ninguém pode esperar
menos que a satanização de Israel e a exaltação da “resistência” dos
terroristas palestinos islâmicos da Faixa de Gaza, num contexto mais amplo de
denúncias e demandas alucinadas, que têm alimentado o imaginário esquerdista
desde o final da Guerra dos Seis Dias, em 1967. Estas constatações são
suficientes para repudiar o apoio que Tarso Genro está emprestando ao Fórum
Palestino, transformado por ele num evento oficial do estado.
Mas os problemas que decorrem da realização deste encontro mundial em Porto
Alegre são ainda mais graves do que se poderia esperar de uma algaravia de
inimigos de Israel, ainda que disfarçados de pacifistas e moderados. Entre as exigências que os organizadores do
Fórum anunciam como decisivas para a pressão junto a governos da Europa, Ásia e
América Latina, está a adoção de medidas BDS (Boicote, Desinvestimento e
Sanções) contra Israel, em conformidade com o que apregoa a própria Organização
para a Libertação da Palestina.
As medidas BDS destinam-se às populações e aos governos. Na Europa e nos Estados Unidos, há ONGs especializadas na pregação do
boicote ao consumo de produtos israelenses. No Brasil, uma ala considerável do PT tenta convencer o governo a adotar as
medidas BDS e persuadir a presidente Dilma Rousseff a agir, na cena
internacional, no sentido de isolar Israel.
Os organizadores do Fórum Palestina Livre
e os grupos políticos internacionais de esquerda que lhes dão sustentação,
entre eles a parte do PT a que pertence Tarso Genro, consideram o Brasil um
país chave para sua atuação. Na América do Sul, o Brasil é o maior parceiro
comercial de Israel. Os dois países mantêm acordos de cooperação tecnológica e
de segurança importantes e, mais ainda, várias empresas israelenses estão
instaladas no Brasil, inclusive no Rio Grande do Sul.
A Elbit Systems, por exemplo, uma das grandes indústrias de tecnologia militar
de Israel, possui contratos de cooperação com as Forças Armadas brasileiras e
fornece equipamentos militares para a Marinha e a Aeronáutica. Sua subsidiária,
a Aeroeletrônica Indústria de Componentes Aviônicos S.A (AEL) tem sede em Porto
Alegre e atua como centro de produção e apoio logístico de equipamentos
eletrônicos de defesa avançada. A AEL é fornecedora de produtos para programas
militares e de segurança no Brasil e em vários outros países. Além disso, atua
com a Embraer para produzir sistemas de aeronaves não tripuladas de uso
militar, como o Harpia Sistemas, que tem sede em Brasília. São empresas
estratégicas para o Brasil manter-se atualizado em tecnologia de ponta na área
militar. A organização do Fórum Palestina Livre afirma que principalmente as
parcerias das empresas israelenses com o setor militar brasileiro contribuem
para manter o que eles chamam de “regime de apartheid” de Israel. Por isso, prepara a denúncia da presença
destas empresas no Brasil, como forma de auxiliar, segundo os organizadores do
Fórum Palestina Livre, na luta maior contra a “limpeza étnica” praticada por
Israel. Não há mentira maior. A
acusação feita contra Israel de prática de apartheid é infame. O que os
organizadores deste Fórum não aceitam é a própria existência do estado judeu.
A sua agenda de propaganda anti-israelense é, também, uma agenda política
previamente delineada para influenciar a
opinião pública e pressionar o governo brasileiro, de modo a fazer com que se
altere a percepção diplomática e negocial tradicionalmente construtiva com
relação aos israelenses.
Tudo isto faz parte de
um movimento global degradante que, há muito tempo, dedica-se a deformar a
imagem de Israel e das comunidades judaicas que o apoiam. Porto Alegre, que
colhe os benefícios de possuir uma empresa israelense de ponta e com inserção
global, no final das contas, receberá
impostores, profissionais da fraude, militantes islamitas e comunistas do mundo
inteiro, num Fórum preparado para atacar Israel de todas as formas. É o novo
antissemitismo cínico aportando por aqui, com o patrocínio de Tarso Genro.
As pessoas mais velhas na Suécia dizem que ser
sueco significa saber como suprir as próprias necessidades, saber cuidar de si
próprio e nunca ser um fardo para o ombro alheio. Independência e trabalho duro
eram as qualidades básicas para se ter uma vida decente, e representavam, acima
de tudo, a idéia básica da moralidade. Isso foi há menos de cem anos.
Minha falecida avó costumava dizer que algo de errado
havia acontecido com o mundo. Ela tinha orgulho de jamais ter pedido ajuda, de
sempre ter sido capaz de valer-se de si própria e de seu marido, e do fato de
eles terem podido cuidar de sua família durante toda a vida. Ao falecer com a
respeitável idade de 85 anos, tenho a felicidade de dizer que ela se foi com
aquela dignidade ainda intacta. Ela nunca foi um fardo.
Minha avó, nascida em 1920, pertencia à última geração a
ter aquele orgulho pessoal que é tão especial, a ter uma moralidade firme e
profundamente enraizada, e que era autônoma e independente na vida, não
importasse o que viesse — eram os senhores únicos do próprio destino. As
pessoas da geração dela testemunharam e agüentaram uma ou duas guerras mundiais
(apesar de a Suécia nunca ter participado de nenhuma) e foram criados por
fazendeiros e operários suecos pobres. Eles testemunharam e foram a força
motora por trás do "milagre" sueco.
Sua moralidade assegurava que eles poderiam sobreviver
em quaisquer condições. Se eles se encontrassem em uma situação em que não fossem
capazes de viver com seus salários, eles apenas iriam trabalhar mais
pesadamente e por mais tempo. Eles eram os arquitetos e os operários da
construção de suas próprias vidas, mesmo que isso frequentemente significasse
trabalho duro e contínuas situações aparentemente desanimadoras.
Eles alegremente se disporiam a ajudar aqueles em
necessidade, mesmo se eles tivessem muito pouco a oferecer, mas provavelmente
não aceitariam qualquer ajuda que lhes fosse oferecida. Eles tinham orgulho da
competência que tinham para cuidar de si próprios; eles apreciavam a
independência em relação a terceiros, a independência de nunca ter de pedir
ajuda. Eles achavam que se não fossem capazes de cuidar de si mesmos, então não
teriam o direito de pedir auxílio a ninguém.
Entretanto, de alguma maneira, eles caíram nas promessas
de políticos que diziam que iriam suprir "os fracos", uma categoria
de pessoas que não existia naquela época: quem iria admitir ser incapaz de
cuidar de si próprio? Mas eles eram pessoas trabalhadoras e de bom coração, e
provavelmente pensaram que uma pequena contribuição para prover aqueles em
condição muito pior seria uma ação típica de um Bom Samaritano.
Teoricamente, é talvez compreensível e até mesmo
invejável. Seus pais e eles já estavam participando voluntariamente de grupos
privados locais, arranjando apoio financeiro para aqueles que necessitavam de
assistência médica ou que tinham perdido o emprego. Em tempos ruins, como
recessões ou rápidas mudanças sociais, tudo isso era um grande ônus, embora
voluntário e feito por interesse próprio. Uma versão em larga escala desse
mesmo tipo de arranjos mútuos para ajudar terceiros provavelmente soou como uma
boa idéia, mesmo que ela tivesse de ser financiada coercivamente através da
tributação.
O problema é que nesse momento o estado assistencialista
foi criado e ele iria mudar dramaticamente a vida das pessoas e afetar sua
moralidade de maneira fundamental. Esse estado de bem-estar poderia ter sido um
projeto de sucesso se as pessoas tivessem continuado tendo o orgulho e a
moralidade de prover a si próprios e somente procurassem amparo se realmente
necessitadas. Ou seja, a criação de um estado assistencialista possivelmente
poderia funcionar em um mundo ceteris paribus, que é o que o estado assistencialista
de fato presume. Mas o mundo está em mudança constante, e por isso um estado
assistencialista requer que as pessoas sejam mais fortes e moralmente
superiores às pessoas em sociedades que não possuem um estado assistencialista.
Esse conhecimento, entretanto, não havia sido adquirido
— e ainda não foi. Ao invés disso, as pessoas pensaram que coisas como o
orgulho pessoal pelo trabalho e pela família eram algo natural, algo que não
precisava ser trabalhado e estimulado; por essa perspectiva, essa proposta
política deve ter parecido um bom negócio. Tudo o que elas tinham de fazer,
disseram-lhes, era deixar a política (e um pouco de poder) para os políticos.
Esse argumento, lamento comunicar, ainda parece válido para o populacho sueco;
os suecos normalmente saúdam propostas para dar mais poder aos políticos, e
eles mesmos tendem a solicitar mais impostos.
A moralidade decente já se foi há muito. Foi
completamente destruída em pouco mais de duas gerações — por benefícios
públicos assistencialistas e pelo conceito de que há um direito ao
assistencialismo.
Os filhos do estado assistencialista
Os filhos da geração dos meus avós, meu pais dentre
eles, rapidamente aprenderam e adotaram uma nova moralidade baseada nos
"direitos" assistencialistas oferecidos pelo sistema de seguridade
social. Enquanto que a geração mais velha não aceitaria ser dependente de
terceiros (incluindo receber benefícios assistencialistas do estado), eles não
relutaram em enviar a geração mais nova para ser educada em escolas públicas.
Certo estou de que eles nunca pensaram ser um "direito" ter seus
filhos educados. Antes, eles aceitaram e agradeceram a oportunidade de seus
filhos terem uma chance que eles mesmos nunca tiveram — uma educação
"gratuita".
Assim, a geração de meus pais freqüentou escolas
públicas onde a eles foi ensinado matemática e idiomas, bem como a
superioridade do assistencialismo e a moralidade do estado. Eles aprenderam o
funcionamento da maquinaria do estado assistencialista e adquiriram uma
concepção (errônea) totalmente nova sobre direitos: todos os cidadãos desfrutam
de um direito — simplesmente pelo fato de serem cidadãos — a educação, a saúde,
ao seguro-desemprego e a seguridade social.
Ser um indivíduo — foi-lhes ensinado — significa ter
direito a receber auxílios para suas necessidades individuais. Todo mundo tem
direito a todos os recursos necessários para se buscar a felicidade própria e a
da sociedade, foi-lhes dito. E todo mundo deve desfrutar do direito de colocar
seus filhos em creches estatais enquanto estiver no trabalho, tornando-se
possível para cada família ganhar dois salários (mas sem tempo suficiente para
criar seus próprios filhos). As oportunidades para a "boa vida", pelo
menos financeiramente, devem ter parecido colossais para as gerações mais velhas.
Essa nova moralidade permeou o populacho e se tornou o
estado "natural" das coisas, ao menos em suas mentes. Essa geração,
nascida durante as duas ou três décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial,
tornou-se consideravelmente diferente da geração de seus pais tanto moralmente
como psicologicamente. Eles se tornaram habituados ao enorme crescimento
econômico do pós-guerra (graças ao fato de a Suécia nunca ter entrado nas
guerras) e aos cada vez maiores direitos assistencialistas concedidos por um estado
em crescimento acelerado. (Para sustentar o crescimento do estado assistencial
e satisfazer a demanda popular por benefícios, o governo sueco desvalorizou a
moeda várias vezes durante as décadas de 1970 e 1980).
Os efeitos sobre a sociedade advindos do crescimento
dessa geração e sua conseqüente entrada no mercado de trabalho foram
principalmente dois: aumento da pressão pública para mais políticas
progressivas; e um fracasso em larga escala, por toda a sociedade, em se criar
filhos independentes e virtuosos, capazes de serem donos de si próprios pelo
resto da vida.
A essa altura, a mudança moral e filosófica ocorrida na
sociedade tornou-se aparente. Enquanto que no início do século XX os Social
Democratas, um poder hegemônico na política sueca por todo o século (e além),
haviam demandado cortes de impostos para tirar de sobre os trabalhadores um
fardo desnecessário, hoje esse partido rapidamente se transformou em um
tributarista feroz e defensor entusiasmado do assistencialismo, e segue pedindo
por mais reformas especiais e "emancipadoras". A massa votante,
filhos do estado assistencialista, dependentes do sistema, apoiou os aumentos
de impostos, que rapidamente ultrapassaram 50%. E eles exigiram que os
benefícios sociais, sempre às custas do contribuinte, fossem maiores que os
impostos pagos.
A mudança política havida assim que os filhos do estado
assistencialista cresceram e começaram a participar da política foi maciça. As
revoltas estudantis de 1968, de cunho comunista, provavelmente representaram o
pico dessa geração radical exigindo mais para si mesmo através da
redistribuição estatal; eles não queriam assumir responsabilidade pessoal por
suas vidas, nem jamais pensaram em ter de trabalhar arduamente para se proverem
a si próprios. "Tenho necessidades", eles argumentavam, e dessa
reivindicação eles diretamente inferiram ter o direito a ter essa necessidade
satisfeita — fosse ela comida, abrigo ou um carro novo.
Considerando que meus pais misteriosamente parecem ter
herdado muito da "velha" forma de moralidade, a maioria das pessoas
da idade deles, e principalmente aqueles mais novos, são paradigmaticamente
diferentes da geração de seus pais. Eles são filhos do estado de bem-estar
social e são plenamente cônscios dos benefícios assistencialistas aos quais
eles têm "direito". Eles não ponderam sobre de onde vêm esses
benefícios, mas são bem céticos quanto a políticos os quais eles pensam que
podem cortá-los. "Mudança" rapidamente se tornou uma palavra
indesejável, já que ela necessariamente implica uma mudança no sistema no qual
as pessoas dependem parasiticamente.
Com essa geração, o fato outrora tido como verdadeiro de
que a produção precede o consumo foi substituído pela crença de que todos têm
um "direito humano" natural e inviolável aos serviços assistencialistas
oferecidos pelo estado. Através dos poderosos sindicatos, os suecos
assalariados foram premiados com aumentos anuais, independentemente da produtividade real; e com o tempo,
aumentos salariais anuais se tornaram uma normalidade. As pessoas que não
conseguiam um aumento passavam a se considerar "punidas" por seus
empregadores malvados, e assim começaram a haver demandas cada vez maiores para
ajudas legais na batalha contra empregadores. As pessoas têm o
"direito" a um salário melhor no ano seguinte, assim como o salário
atual deve ser melhor que o do ano passado; e por aí vai o pensamento.
Essa mudança na percepção foi, como vimos, precedida por
uma mudança nos valores. A mudança social também mudou as condições para a
filosofia e, assim, novas e estranhas teorias destrutivas emergiram. As
crianças dessa geração, nascidas nas décadas de 70, 80 e 90, tiveram em comum
uma criação "livre" (baseada nos ideais de 1968), significando
essencialmente uma infância "livre de regras" e "livre de responsabilidades".
Para essa geração não há qualquer causalidade na vida em sociedade; o que quer
que você faça não é sua responsabilidade — até mesmo ter filhos. Essa é a
mentalidade dos atuais jovens adultos da sociedade sueca. Os netos do estado assistencialista
Eu mesmo faço parte dessa segunda geração de pessoas
criadas com e pelo estado assistencialista. Uma diferença significante entre a
minha geração e a antecessora é que a maioria de nós não foi criada pelos
nossos pais sob qualquer aspecto. Fomos criados pelas autoridades das creches
estatais no período da infância; então fomos empurrados para as escolas
públicas, depois para escolas secundárias públicas e universidades públicas; e
mais tarde para o emprego no setor público e para mais educação através dos
poderosos sindicatos e suas associações educacionais. O estado é uma presença
constante em tudo, e para muitos ele é o único meio de sobrevivência — e seus
benefícios assistenciais a única maneira possível de ganhar independência.
A diferença para as gerações mais velhas é obvia. Meus
avós viveram em um mundo totalmente diferente, moral e filosoficamente, e meus
pais ainda apresentam alguns vestígios herdados de meus avós, como aquele
"velho" senso de justiça e a percepção do certo e do errado. Enquanto
que os pais da minha geração estão apenas parcialmente estragados (o que já é
ruim o suficiente), minha geração está totalmente sem rumo. Por não ter sido
criada com os valores sólidos de nossos avós, mas sim com aqueles
propagandeados pelo estado-babá, os netos do estado assistencialista não
possuem qualquer entendimento de questões econômicas.
Para os "netos", uma percepção comum de
justiça é que indivíduos têm o "direito" de reivindicar perpetuamente
que a sociedade supra alguém com o que quer que esse alguém considere
necessário (ou divertido). Em um recente debate ocorrido na TV estatal, os
filhos e netos do estado assistencialista se encontraram para discutir
desemprego e os problemas comuns enfrentados pelos jovens em crescimento e que
estão entrando no mercado de trabalho. A exigência dos "netos" era
literalmente que os "mais velhos" (nascidos nas décadas de 40, 50 e
60) saíssem de cena (isto é, parassem de trabalhar), porque o trabalho deles
"roubava" empregos dos mais jovens!
A "lógica assistencialista" que sustenta tais
exigências absurdas funciona mais ou menos assim: a premissa é que cada
indivíduo tem o direito a ter uma boa vida. Disso pode se concluir que uma boa
vida significa não ter que se preocupar com riquezas materiais, sendo por isso
essencial receber benefícios assistencialistas e ganhar uma
"independência" financeira. Independência financeira, por sua vez,
requer um bom status, um alto salário e um emprego não muito exigente; donde se
infere que um bom emprego é um direito humano. As pessoas que atualmente têm
esses empregos literalmente ocupam essas posições e, portanto, estão no caminho
e devem sair da frente — cada um deles, sem exceção, está violando meu direto
àquele emprego. Isso faz com que cada um que tenha um bom emprego seja um
violador de direitos e, portanto, um criminoso.
Todos sabemos o que pensar de criminosos: eles deveriam
estar trancafiados. Tal sentença também é o que demanda um ainda muito pequeno,
porém rapidamente crescente número de jovens na Suécia — sentença essa que deve
ser aplicada em donos de negócios que não desejam contratá-los, ou em pessoas
mais velhas que ocupam posições que esses jovens desejam. É
"necessário" fazer leis mais progressivas.
Mas essa não é uma idéia apoiada apenas pela juventude
ignorante. Em 2006, o sindicato nacional dos trabalhadores varejistas exigiu
que o estado "redistribuísse" empregos oferecendo pensões estatais a
pessoas com mais de 60 anos caso elas se demitissem e seus empregadores
passassem a empregar pessoas jovens e desempregadas em seus lugares. Pelos
cálculos do sindicato, tal truque "criaria" 55.000 empregos.
O que isso mostra é que a única maneira perceptível de
se encontrar empregos para os mais jovens parece ser "liberando" os
mais velhos dos seus; postos de trabalho estão escassos e o desemprego está
subindo mesmo com a crescente demanda por bens e serviços — graças à pesada
regulação estatal sobre o mercado. O estado assistencialista cria problemas e
conflitos em vários níveis, forçando as pessoas a competir por fatias cada vez
mais decrescentes de riqueza. A solução: mais regulamentação e menos
prosperidade. Isso é o que acontece quando a necessidade e a vontade substituem
o mérito e a experiência, tanto na moralidade pública como na pessoal. Exigindo responsabilidade social
Essa moralidade degenerada e a falta de compreensão
quanto à ordem natural e real das coisas também é evidente nas áreas que
requerem responsabilidade pessoal e respeito para com o próximo. Os velhos hoje
são tratados como um lastro, ao invés de como seres humanos e parentes. As
gerações mais novas acham que têm o "direito" de não assumir
responsabilidade pelos seus pais e avós — e com isso exigem que o estado os
alivie desse fardo.
Consequentemente, os velhos na Suécia, em sua maioria,
vivem deprimidos e solitários em suas casas, esperando que a morte chegue; ou
já foram institucionalizados em asilos públicos sob vigilância 24 horas por
dia, sete dias por semana, de modo a aliviar o encargo que representam para as
gerações mais jovens. Alguns deles chegam a ver seus netos e parentes por
apenas uma ou duas horas no Natal, quando as famílias fazem um esforço para ir
visitar seus "problemas".
Mas os mais velhos não são os únicos que se encontram na
periferia da sociedade assistencialista, enquanto o estado está cuidando da
população ativa. O mesmo ocorre com os mais jovens, que também são entregues ao
estado para receber cuidados públicos ao invés de serem criados e educados por
seus pais.
Minha mãe, uma professora de escola secundária, já teve
de enfrentar pais de seus alunos que exigiam que ela "fizesse algo"
quanto à estressante situação familiar pela qual eles passavam. Eles exigiam
que a "sociedade" se responsabilizasse pela criação de seus filhos,
já que eles próprios já tinham gasto "muitos anos" cuidando deles.
("Cuidando" normalmente significa deixá-los na creche pública às 7 da
manhã e pegá-los novamente às 6 da tarde).
Eles enfatizam espalhafatosamente ter o
"direito" de serem aliviados desse encargo. Os problemas causados em
casa por crianças desobedientes e fora de controle devem ser resolvidos nas
salas de aula por funcionários da escola e em creches pela equipe do jardim de
infância. As crianças devem ser vistas, mas não ouvidas; e elas não devem de
modo algum atrapalhar o direito de seus pais a uma carreira, a longas férias no
exterior e a participar de eventos sociais.
Com o intuito de manter a geração adulta trabalhando e
criando riqueza que possa ser tributada (as alíquotas de impostos sobre os
trabalhadores de baixa renda está em torno de 65% da renda), o estado
assistencialista sueco continuamente lança programas progressivos para
protegê-los de incidentes e problemas. A liberdade assistencialista representa
uma existência livre de problemas, livre de responsabilidades e rica em
benefícios.
O que estamos vendo hoje na Suécia é a conseqüência
perfeitamente lógica do estado assistencialista: ao distribuir benefícios e,
assim, liberar o indivíduo da responsabilidade individual por sua própria vida,
um novo tipo de indivíduo é criado — o imaturo, irresponsável e dependente. Com
efeito, o que o estado assistencialista criou foi uma população de crianças
moral e psicologicamente dependentes — assim como pais que nunca deixam seus
filhos enfrentar problemas, assumir responsabilidades e criar soluções sozinhos
tornam seus rebentes mimados, em constantes necessidades e extremamente
exigentes.
A analogia com as crianças mimadas está se provando
verdadeira no cotidiano das pessoas que trabalham no setor público, que estão
enfrentando as demandas da população. Já aprendi que não é incomum que jovens
pais repreendam professores por acharem que o para casa é uma pressão
"desnecessária" sobre os mais novos. As crianças têm o
"direito" ao conhecimento, mas aparentemente elas não deveriam ser expostas
à educação, já que esta requer estudo e esforço. A função dos professores é
obviamente fornecer às crianças um conhecimento que elas possam consumir sem
ter de refletir ou mesmo pensar a respeito (ou até mesmo estudá-lo). Ter de
fazer algo por conta própria é "opressivo". Uma
"obrigação", mesmo que seja um efeito das leis da natureza, é algo
totalmente injusto e representa a violação do direito a uma vida livre de
problemas. A natureza em si, junto com suas leis, se torna um "fardo".
A economia da dependência
Talvez essa mentalidade explique o aumento na
popularidade de teorias irrealistas como o ceticismo e o pós-modernismo, onde
nada pode ser tomado como verdadeiro. A lógica, alegam, é apenas uma construção
social que não tem qualquer relação com a realidade ou com o mundo (se é que
ela sequer existe). Essas teorias são magníficas pelo fato de elas jamais
poderem ser provadas — ou refutadas. Não importa o que você diga, você jamais
precisará se responsabilizar por sua declaração — ninguém pode verificar sua
tese, ninguém pode criticá-la ou mesmo utilizá-la. Ela é sua e existe apenas
pra você — e ela é verdadeira só para você.
A inutilidade de tais teorias deveria ser óbvia. Também
deveria ser óbvio que os proponentes dessas teorias assumem que certas coisas,
como a existência, são garantidas — eles vivem suas vidas baseando-se apenas em
dúvidas e na "sabedoria" de que não há nada que alguém possa de fato
saber, que nada é o que parece. Mas isso, ao que parece, deve ser a beleza da
coisa.
De certo modo, a premissa austríaca de que "valores
são subjetivos" foi tomada muito literalmente. Nessas teorias
"modernas", a subjetividade é o princípio fundamental da realidade, e
não a maneira como a realidade é avaliada ou percebida. Essa "compreensão"
é inferida diretamente da moralidade relativa e de lógica relativa das crianças
e dos netos do estado assistencialista. Não há necessidade que alguém produza
para que um outro possa consumir — e não há necessariamente um ônus sobre
aquele que deve fornecer os benefícios que eu preciso para poder viver a
"boa" vida. Afinal, viver uma boa vida é um direito humano; sendo que
o direito é o único ponto fixo em um universo em constante mudança e
subjetivamente instituído.
Da perspectiva de um observador (como eu me considero),
toda essa loucura faz sentido — ensinar as pessoas que elas não precisam se
preocupar com as conseqüências de suas atitudes torna-as prontamente
dependentes. O estado assistencialista criou o monstro egotista contra o qual
ele alega querer nos salvar — através da distribuição de privilégios e
benefícios para todos às custas de "ninguém".
Os engenheiros sociais do estado assistencialista
obviamente nunca consideraram uma possível mudança na moralidade e na percepção
— eles simplesmente queriam um sistema que garantisse seguridade para todos; um
sistema no qual o capaz poderia e deveria trabalhar para sustentar a si
próprio, e que o incapaz também pudesse viver uma vida digna. Quem iria
imaginar que as reformas progressistas feitas para garantir direitos
trabalhistas e prosperidade para todos no início do século XX iriam ricochetear
e moral e filosoficamente?
Já deveria estar óbvio que nada saiu como esperado — a
sociedade simplesmente não era tão previsível como foi previsto.
Essa nova moralidade é obviamente oposta àquela da
geração dos meus avós. É uma moralidade que diz que a independência só pode ser
atingida através da transferência de responsabilidades para terceiros, e que a
liberdade só pode ser conquistada através da escravização de outros (e de si
próprio). O resultado dessa moralidade degenerada por toda a sociedade é um
desastre economicamente, socialmente, psicologicamente e filosoficamente.
Mas isso também é uma tragédia para milhares de suecos.
As pessoas parecem incapazes de desfrutar a vida sem ter responsabilidade pelas
próprias ações e escolhas, e é impossível sentir orgulho e independência sem
ter os meios para se controlar o próprio viver. O estado assistencialista criou
pessoas dependentes e totalmente incapazes de encontrar algum valor em sua
existência; ao invés disso, eles se vêem incapazes de ter sentimentos
tipicamente humanos como orgulho, honra e empatia. Esses sentimentos, junto com
os meios para se criar um sentido para a vida, foram tomados pelo estado assistencialista.
Talvez isso explique por que uma grande parte da
população jovem de hoje consome medicamentos antidepressivos, sem os quais eles
são incapazes de funcionar normalmente em situações sociais. E presumivelmente
isso explica por que o número de suicídios entre as pessoas bem jovens que
nunca de fato conheceram seus pais está aumentando dramaticamente (o número
total de suicídios permanecendo praticamente o mesmo). Ainda assim, as pessoas
são totalmente incapazes de ver o problema ou achar uma solução. Como crianças
mimadas, elas clamam ao estado por "ajuda".
Isso, minha avó nunca conseguiu entender. Que ela
descanse em paz.